Controle do banheiro e cobrança de metas: telemarketing de Goiânia paga R$ 10 mil por assédio
Autoria
Roberto Brunoro Ramos
Publicado em

Controlar quantos minutos o funcionário passa no banheiro e cobrar metas aos gritos não é "jeito de gerir": é assédio. A Justiça do Trabalho de Goiás condenou uma empresa de telefonia de Goiânia a pagar R$ 10 mil a uma atendente de telemarketing que vivia sob esse tipo de pressão. O tribunal chamou a prática de assédio moral organizacional, aquele que faz parte do próprio modo de a empresa funcionar e atinge todo mundo, não só uma pessoa.
O que aconteceu
A decisão é da Primeira Turma do Tribunal Regional do Trabalho de Goiás (TRT-GO) e foi divulgada em 3 de novembro de 2026. O relator foi o desembargador Welington Luis Peixoto.
No processo ficou provado que os supervisores mandavam os atendentes usarem o banheiro por no máximo dez minutos por dia e chamavam a atenção de quem passasse disso. Uma testemunha contou ter visto a trabalhadora ser questionada pelas supervisoras sobre o tempo da pausa. Ela disse que tinha cinco minutos de pausa e que, se passasse, recebia ligações e mensagens da chefia, o que a deixava constrangida.
Além disso, as cobranças por metas eram ríspidas. Para a empresa, o tempo no banheiro atrapalhava os números de produtividade e, com isso, a parte variável do salário.
Por que a Justiça considerou isso assédio
O tribunal explicou que existe um tipo de assédio que não é dirigido a uma pessoa só. Ele nasce das regras e da forma de gestão da empresa e pesa sobre toda a equipe. É o chamado assédio moral organizacional, também conhecido como gestão por estresse: a empresa aposta em pressão constante e vigilância exagerada para aumentar a produção.
Para o relator, controlar as pausas de forma rigorosa, junto com a cobrança dura por resultados, passou do limite do que a empresa pode exigir. Esse tipo de gestão, disse ele, fere a dignidade de quem trabalha e pode prejudicar a saúde mental. Por isso, a empresa tem o dever de indenizar.
Ainda cabe recurso da decisão.
O que muda para você
A decisão vale para esse processo, mas mostra como a Justiça do Trabalho tem olhado para situações muito comuns em centrais de atendimento, lojas, bancos e supermercados.
Se você trabalha sob regras parecidas, saiba que:
- a empresa pode organizar o trabalho e cobrar resultados, mas não pode humilhar nem expor o funcionário;
- controlar de forma exagerada o uso do banheiro pode ser considerado abuso;
- metas impossíveis, cobranças aos gritos, rankings para envergonhar e ameaças constantes podem configurar assédio;
- o assédio não precisa ser contra você sozinho: se a pressão é contra toda a equipe, ela também pode gerar indenização.
Quem pode ter direito
Pode ter direito à indenização quem passou por situações como estas:
- limite de tempo para ir ao banheiro, com bronca ou punição a quem passa do tempo;
- ligações e mensagens da chefia cobrando o retorno da pausa;
- cobrança de metas com gritos, ofensas ou exposição na frente dos colegas;
- pressão constante que causou ansiedade, insônia ou outros problemas de saúde.
Cada caso depende de prova. Por isso, guardar registros é muito importante.
O que fazer agora
- Guarde provas: prints de mensagens da chefia, áudios, e-mails, registros de pausa e escalas.
- Anote datas e nomes: escreva o que aconteceu, quando e quem presenciou. Colegas podem ser testemunhas.
- Cuide da saúde: se a pressão afetou você, procure um médico e guarde atestados e receitas.
- Não peça demissão sem orientação: dependendo do caso, é possível sair com todos os direitos, pela chamada rescisão indireta.
- Procure ajuda: se você passa ou passou por isso, fale com a nossa equipe para avaliar o seu caso.









